A Cafeteira e a Janela Aberta: Um Conto sobre a Travessia da Depressão (Narrativa 2021)
Uma história de afeto, escuta e resiliência humana sobre a travessia do inverno da depressão.
Para Helena, levantar-se da cama havia se tornado uma escalada do Everest sem oxigênio. A depressão não tinha a forma de uma tristeza estridente; era antes um cinza opaco, uma anestesia pesada que roubava o gosto da comida, o interesse pelos livros e a cor dos rostos familiares.
Durante semanas, as cortinas permaneceram cerradas. No entanto, em uma quinta-feira cinzenta, sua vizinha dona Clara, uma senhora de oitenta anos com olhos mansos de quem já viveu tempestades sem fim, não tocou a campainha para perguntar se ela estava 'animada'. Simplesmente deixou na soleira da porta um pão quente enrolado em pano xadrez e um bilhete manuscrito: 'Não precisa falar nada, filha. Só abri um dedo da janela para a brisa entrar. O mundo espera por você sem cobranças.'
Aquele gesto desprovido de julgamentos quebrou a crosta de gelo que blindava o peito de Helena. Ela chorou um pranto longo, não de derrota, mas de alívio por não precisar fingir força. Foi até a janela e puxou a cortina cinco centímetros.
Uma réstia fina de luz tocou o assoalho de madeira. Helena respirou o ar fresco da manhã, pegou um pedaço daquele pão e sentou-se na poltrona. A cura não aconteceu de repente como um raio milagroso, mas começou ali: no reconhecimento humilde de que um passo de cada vez basta para atravessar o deserto mais árido.
Mensagem Terapêutica: Toda dor humana merece ser acolhida com paciência. Cuidar da saúde mental é reconhecer a própria humanidade e abrir espaço para o tempo, o afeto e a reconstrução.
Contista, Poeta & Pesquisador em Saúde Mental · Publicação de 15/10/2021 às 23:35







