A Fila do INSS na Rua da Aurora e os Fantasmas do Recife (Crônica Urbana 2012)
A fila começava antes das cinco da manhã, quando o Rio Capibaribe ainda cheirava a maresia e silêncio.
Dona Lindalva segurava uma pasta de plástico azul com elástico frouxo contendo quarenta e dois anos de carteiras de trabalho assinadas, desbotadas e carimbadas.
Havia ali recibos de firmas que faliram antes da construção de Brasília.
O rapaz da triagem olhou o documento número sete com a desconfiança de quem examina um pergaminho apócrifo da Biblioteca de Alexandria.
— Senhora, falta a firma reconhecida do escrivão de Vitória de Santo Antão de mil novecentos e setenta e quatro.
Dona Lindalva ajeitou os óculos na ponta do nariz.
— Meu filho, em setenta e quatro nem Maurício de Nassau achava aquele cartório aberto. O senhor quer que eu desenterre o tabelião ou basta a minha certidão de nascimento com o carimbo do bispo?
O rio corria lá fora, manso e indiferente aos decretos-leis.
O funcionário hesitou.
O carimbo de ferro bateu na mesa com o peso solene de um canhoneio naval.
Aprovado.
Dona Lindalva desceu os degraus da calçada da Aurora com o passo firme de quem acabara de vencer a insurreição pernambucana sem disparar um único tiro.
Cristiano Ricardo — Escritor
Crônicas Brasileiras & Flagrantes do Cotidiano · Publicado em 29/04/2012 às 04:05.







