A Flor que Rompe o Asfalto e a Fé no Amanhã
A poesia da resistência cotidiana; a convicção inegociável de que nenhuma tirania, crise ou dor é capaz de silenciar a vida para sempre. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre a teimosia sagrada da esperança.
Entre duas placas espessas de piche na calçada movimentada da avenida, uma minúscula semente de dente-de-leão encontrou uma fresta de terra microscópica, alimentou-se de poeira e água de chuva e rompeu a crosta mineral para abrir suas pétalas douradas. Pessoas apressadas pisavam ao lado, carros cuspiam fumaça preta sobre ela, mas a florzinha permanecia ali, ereta, luminosa e insolente.
Carlos Drummond de Andrade cantou a flor que fura o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Essa metáfora vegetal é o resumo da nossa própria existência. Todos os dias, as notícias nos dão motivos de sobra para desistir: guerras sangrentas em terras distantes, escândalos de corrupção nos jornais matutinos, índices alarmantes de aquecimento global e a sensação de que o mundo caminha para um desfiladeiro.
Entretanto, render-se ao desespero é uma capitulação covarde. O cinismo moderno posa de inteligência lúcida, mas quase sempre não passa de preguiça moral: é muito mais fácil cruzar os braços e dizer que 'nada presta' do que levantar-se da cadeira e acender uma vela discreta na escuridão.
A vida é teimosa por natureza. Ela renasce no choro do recém-nascido na favela, no professor que entra na sala de aula acreditando no futuro dos alunos, no agricultor que lança a semente na terra seca e no abraço que perdoa um erro do passado. A esperança não é uma ingenuidade boba: é a certeza heroica de que o bem sempre terá a última palavra na história.
“O cinismo e a desesperança são fáceis; o verdadeiro heroísmo consiste em continuar acreditando na beleza e na redenção da humanidade.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre a teimosia sagrada da esperança
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 28/10/2002 às 03:11
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