A Limpeza das Gavetas e a Leveza de Não Precisar de Quase Nada — Diário do Tempo (2020)
Esvaziar os armários de roupas inúteis e a memória de rancores velhos; a riqueza incomparável de quem aprendeu o que basta. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre a serenidade da renúncia voluntária.
Num sábado qualquer, resolvi abrir aquelas gavetas do armário que permaneciam cerradas há quase uma década. Encontrei ali uma arqueologia patética dos meus excessos: aparelhos eletrônicos com cabos obsoletos, roupas que nunca usei esperando por uma festa que jamais aconteceu, recibos de compras das quais nem me lembro e papéis amarelados de projetos que perderam o sentido.
A sociedade de consumo nos inocula a crença perversa de que somos definidos pela quantidade de coisas que conseguimos comprar e estocar. Passamos a vida trabalhando feito condenados para comprar objetos dos quais não precisamos, com o dinheiro que não temos, para impressionar pessoas das quais nem sequer gostamos. É a escravidão moderna com verniz de sucesso.
À medida que fui enchendo sacolas para doação e jogando no lixo o que era pura tralha inútil, senti o quarto respirar e, com ele, o meu próprio pulmão. Desfazer-se do supérfluo tem a virtude mágica de abrir clareiras na alma. Descobrimos com um sorriso que a nossa felicidade cabe numa mala pequena e numa mesa de madeira com poucas cadeiras.
O desapego das coisas materiais é apenas o primeiro passo; o passo mais nobre é o desapego das queixas antigas, dos rancores mofados e das expectativas frustradas. Quem viaja pela vida com pouca bagagem caminha mais longe, cansa menos e chega ao destino com os braços livres para abraçar o presente.
“Rico não é aquele que acumula montanhas de coisas para vigiar com angústia, mas quem tem a alma leve o suficiente para viver com o que é essencial.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre a serenidade da renúncia voluntária
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 22/12/2020 às 02:58
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