A Linha que Separa o Asfalto da Lama — Diário do Tempo (2006)
O abismo que divide os bairros nobres das quebradas esquecidas pelo poder público; como o urbanismo reproduz a violência da exclusão. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre as fronteiras invisíveis da cidade.
Não há arame farpado nem guaritas armadas nas divisas oficiais dos bairros, mas qualquer morador de grande cidade sabe exatamente onde termina a cidadania plena e onde começa a terra de ninguém. A fronteira é marcada pelo estado do asfalto, pela frequência com que o caminhão de lixo passa e pelo tempo de espera no posto de saúde.
Enquanto nas zonas nobres o poder público planta tulipas em canteiros centrais e enterra a fiação para embelezar o horizonte dos prédios espelhados, a poucos quilômetros dali mães caminham com os filhos no colo sobre tábuas bambas para escapar do esgoto a céu aberto que transborda a cada garoa de fim de tarde.
Essa segregação espacial é o motor invisível de todas as violências urbanas. O jovem da periferia gasta quatro horas por dia em ônibus sucateados apenas para trabalhar no bairro onde ele não pode consumir nem circular à noite sem ser interpelado pela polícia. É uma ferida viva que alimenta a revolta e consome as esperanças de gerações inteiras.
Sonhar com uma cidade verdadeiramente integrada não é devaneio de visionário: é a pré-condição básica para a sobrevivência coletiva. O concreto que segrega hoje é o mesmo que cobrará a fatura amanhã. Ou a cidade inteira se torna um lar digno para todos os seus filhos, ou ela continuará sendo uma fortaleza sitiada pelo medo.
“Uma metrópole partida não é sustentável; a segurança real só existirá no dia em que a dignidade da calçada do centro chegar ao beco da periferia.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre as fronteiras invisíveis da cidade
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 05/02/2006 às 02:46
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