A Mala de Papelão e o Cheiro da Terra Distante — Caderno de Vida (2012)
A epopeia silenciosa do sertanejo que deixa o torrão natal para construir os prédios da metrópole, carregando a saudade na alma. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre a dor e a glória da terra deixada para trás.
Seu Raimundo chegou a São Paulo em 1974, numa viagem de seis dias num ônibus sacolejante que parecia não ter fim. Trazia consigo apenas uma mala de papelão amarrada com barbante de sisal, um par de sapatos de sola de couro e a bênção de sua mãe gravada na memória como um selo sagrado. Tinha vinte e dois anos e nunca tinha visto um edifício de dez andares.
Cinco décadas depois, ele caminha pelas avenidas elegantes da capital paulista e aponta com o dedo calejado: 'Aquele hospital ali fui eu que ajudei a subir o vigamento; aquela ponte estaiada eu bati o concreto até as duas da manhã no meio do frio'. Raimundo e milhões de seus irmãos nordestinos ergueram com seus próprios ossos e tendões a maior metrópole da América do Sul.
O preconceito preconceituoso e provinciano que tantas vezes se manifesta em piadas grosseiras ou em comentários arrogantes de internet é a confissão explícita da ignorância moral. Sem o braço forte, a coragem e a fé inabalável do migrante, o progresso paulista não passaria de um rascunho inacabado no papel.
Nas noites quentes de domingo, Raimundo ainda escuta o rádio de pilha sintonizado em programas que tocam o baião de Luiz Gonzaga e o forró pé-de-serra. Seus olhos se perdem no horizonte de antenas da periferia e ele viaja de volta para o chão de terra batida da sua infância. Ele venceu na vida não porque ficou milionário, mas porque sustentou os seus com dignidade e manteve o coração fiel à sua origem.
“O migrante sai da sua terra por necessidade, mas a sua terra nunca sai do seu peito: ele constrói o futuro alheio para alimentar as suas raízes.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre a dor e a glória da terra deixada para trás
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 16/01/2012 às 03:28
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