A Panela Coletiva e a Mão que Salva na Tempestade — Diário do Tempo (2013)
Quando as chuvas arrasam as encostas e o Estado falha, é a generosidade do vizinho pobre que estende a mão e divide o último pedaço de carne. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre a força invencível da solidariedade comunitária.
Quando a encosta do morro desabou naquela madrugada trágica de fevereiro, arrastando barracos de madeira e sonhos de gerações, o socorro oficial demorou doze horas para chegar pelas vielas estreitas. Quem tirou as crianças da lama com as próprias unhas sangrando, quem arrombou portas emperradas para salvar idosos e quem improvisou macas com portas de guarda-roupa foram os próprios vizinhos da quebrada.
Na cozinha comunitária improvisada na quadra da associação de moradores, dona Sebastiana, que perdeu metade da casa no soterramento, não chorava de braços cruzados: atiçava o fogo num caldeirão enorme para cozinhar o feijão com abóbora doado por feirantes solidários. Ela servia cada marmita com um sorriso acolhedor e dizia: 'Coma, meu filho, que enquanto tiver um grão nesta panela ninguém dorme sem comer'.
É essa solidariedade visceral e desinteressada que mantém o tecido social do Brasil vivo no meio do abandono crônico. Os que têm pouco são invariavelmente os que mais dividem. Eles não fazem doações dedutíveis no imposto de renda nem chamam equipes de filmagem para divulgar o seu altruísmo; ajudam simplesmente porque compreendem, na carne, a dor do abandono.
Se o país ainda não sucumbiu à barbárie total, não é pela eficiência das suas instituições ou pela caridade de suas elites econômicas, mas pela fibra moral inquebrável dessas mulheres e homens anônimos que transformam cada tragédia numa lição magistral de humanidade e amor fraterno.
“A nobreza moral dos que menos têm envergonha a avareza dos ricos: quem conhece a fome divide o prato sem perguntar quem tem fome.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre a força invencível da solidariedade comunitária
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 09/11/2013 às 03:44
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