A Sabedoria dos Outonos Pessoais — Diário do Tempo (2013)
Quando as folhas caem não por fraqueza, mas para poupar a seiva do tronco; o alívio indescritível de não precisar mais agradar a plateia. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre maturidade e serenidade.
Há um dia imperceptível no calendário interior em que a gente acorda e descobre que a urgência do aplauso alheio simplesmente evaporou. Não houve um terremoto emocional nem uma decisão solene diante do espelho; foi apenas o tempo operando a sua sutil destilação. As opiniões enfáticas que antes tiravam o sono passam a ter a relevância de uma brisa leve num galho grosso: balançam as folhas, mas não arrancam as raízes.
Na juventude, colecionamos certezas como quem junta pedras brilhantes na beira do rio; na maturidade, começamos a devolvê-las calmamente à correnteza, reconhecendo que a vida é infinitamente mais vasta do que as nossas teorias de gaveta. Descobrimos a elegância de não ter opinião formada sobre tudo, o luxo de calar quando a discussão é apenas um torneio de vaidades e o valor inestimável de uma tarde quieta com um café coado e um livro que não precisa ser citado em público.
As rugas ao redor dos olhos e os fios de prata que tomam as têmporas não chegam como arautos da decadência, mas como assinaturas autênticas de quem não assistiu à própria existência da arquibancada. Cada marca é uma tempestade superada, uma despedida que nos ensinou a amar com as mãos abertas, um fracasso do qual nos erguemos sem perder a ternura.
O outono da alma é a estação mais rica porque nele colhemos o que plantamos nas primaveras atabalhoadas. Já não temos a força bruta dos vinte anos, mas desenvolvemos a arte precisa de aplicar a força certa no ponto exato. E, acima de tudo, aprendemos a olhar para os outros com a indulgência de quem sabe que todo ser humano está apenas tentando, aos trancos e barrancos, carregar a sua própria cruz.
“Amadurecer não é perder o encanto do mundo, mas desarmar as guerras inúteis e aprender a habitar o próprio silêncio com respeito.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre maturidade e serenidade
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 22/02/2013 às 03:22
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