A Vitrine da Vida Alheia e o Fim das Comparações Estéreis — Notas da Jornada (2005)
A sensação crônica de que estamos atrasados em relação aos outros; a descoberta libertadora de que cada alma tem seu tempo de floração. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre a angústia de não ser suficiente.
Basta abrir a janela de qualquer aplicativo para sermos bombardeados pela ficção do sucesso ininterrupto: amigos que acabam de comprar a casa dos sonhos, conhecidos promovidos a cargos de destaque em multinacionais, viagens paradisíacas com sorrisos impecáveis e corpos esculturais que desafiam as leis da anatomia. Diante dessa avalanche de euforia cenográfica, é inevitável sentir-se pequeno, atrasado e incompetente.
Essa sensação de inadequação é uma das maiores fontes de sofrimento da vida moderna. Esquecemos que aquilo que reluz nas telas é apenas um recorte cirurgicamente editado para alimentar a vaidade. Ninguém posta a discussão ríspida na cozinha por falta de dinheiro, o remédio tarja preta tomado escondido no banheiro ou a solidão dilacerante de uma noite de domingo.
A árvore não se apressa porque a roseira ao lado floresceu mais cedo; ela sabe que precisa fincar as raízes no escuro da terra antes de erguer a copa em direção ao céu. Algumas pessoas desabrocham aos vinte anos e esgotam o talento aos trinta; outras só encontram o próprio tom aos cinquenta, após terem acumulado dores e vivências que lhes conferem densidade ímpar.
O único parâmetro legítimo de comparação é você mesmo com o que você era ontem. Se hoje você consegue ser um pouco mais tolerante, um pouco mais compassivo com suas fraquezas e um pouco mais corajoso diante dos seus deveres, a sua colheita já é rica e digna de celebração.
“Ninguém publica os seus fracassos nem os seus choros noturnos; parar de comparar o seu bastidor com o palco alheio é a chave da serenidade.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre a angústia de não ser suficiente
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 08/05/2005 às 03:48
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