O Afeto que Não Precisa de Holofotes — Reflexão de 2003
A beleza madura do carinho que não depende de declarações espalhafatosas em redes sociais; o copo d'água levado na cabeceira. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre o amor sem cenografia e a cumplicidade mansa.
As redes sociais inventaram uma modalidade ruidosa e performática de afeto. Casais fotografam buquês gigantes de flores, trocam declarações de mil caracteres em datas comemorativas e contratam drones para filmar pedidos de casamento à beira-mar. Muitas vezes, porém, quando a câmera é desligada, sobra apenas o silêncio gelado de duas pessoas que não sabem conversar sem plateia.
O amor de verdade é tímido e avesso a cenografias. Ele se manifesta nas sutilezas que ninguém fotografa: no prato deixado aquecido no forno para quem chega mais tarde do trabalho; na coberta ajeitada sobre os ombros no meio da madrugada; na xícara de café trazida sem que tenha sido pedida nos dias em que o cansaço aperta.
Amar alguém por décadas é a arte sublime de negociar manias, perdoar desabafos estressados de dias difíceis e achar graça nas pequenas manias que o tempo acentua. É saber que o corpo perde o viço dos vinte anos, mas o olhar ganha uma profundidade de compreensão que nenhum filtro de beleza é capaz de reproduzir.
No fim das contas, quando todas as luzes da vaidade se apagam e as crises da vida nos colocam de joelhos, o que nos salva não são os juramentos grandiloquentes, mas a certeza inabalável de que há uma mão amiga ao nosso lado que não soltará a nossa por nada deste mundo.
“O amor duradouro não se sustenta no fogo efêmero da paixão cinematográfica, mas na doçura paciente de cuidar do outro no silêncio do dia a dia.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre o amor sem cenografia e a cumplicidade mansa
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 11/05/2003 às 03:04
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