O Café da Cinelândia e a Diplomacia do Pastel de Vento (Crônica Urbana 2020)
Na Cinelândia, o meio-dia tem a temperatura de um debate constituinte.
Dois senhores de suspensório e cabelos grisalhos gesticulavam sobre o mármore manchado do balcão.
Um defendia que o Marechal Floriano Peixoto tinha razão em tudo; o outro sustentava que Getúlio Vargas sabia exatamente onde o sapato da nação apertava, especialmente na hora de redigir uma carta-testamento em papel timbrado.
O garçom, indiferente à queda dos impérios e aos tratados de Versalhes, depositou dois pastéis de queijo sobre o guardanapo engordurado.
Morderam.
Oco.
Uma bolha colossal de ar quente que escapou assobiando, deixando apenas uma película crocante de farinha frita e uma lágrima invisível de queijo no canto esquerdo.
— Isto aqui é o Brasil, Osório! — bradou o florianista, apontando a casca vazia. — Muita casca, muito barulho, e o recheio adiado para o próximo plano quinquenal.
O outro mastigou com solenidade patriótica.
— Mas a casca, meu caro, convenhamos... é de uma crocância insuperável.
Cristiano Ricardo — Escritor
Crônicas Brasileiras & Flagrantes do Cotidiano · Publicado em 20/01/2020 às 02:40.







