O Céu de Fumaça e a Semente que Teima em Brotar — Reflexão de 2025
A angústia de ver o horizonte tomado pela fumaça das queimadas e a transformação do luto ecológico em ativismo e plantio regenerativo. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre a ansiedade climática e a esperança que planta.
Houve dias em que o sol nasceu cor de sangue, velado por uma cortina espessa de fuligem que viajou milhares de quilômetros das matas em chamas até engolir as cidades do Sudeste. O ar tinha gosto de queimada velha e os olhos ardiam como se estivéssemos trancados numa estufa de cinzas. A sensação coletiva era de um luto planetário sem precedentes.
Os jovens olham para esse cenário e são tomados por uma dor legítima que a psicologia contemporânea batizou de 'ecoansiedade'. Como fazer planos de longo prazo, como pensar em carreira e filhos, quando as manchetes nos avisam a cada relatório que os corais estão morrendo, os glaciares derretendo e as bacias hidrográficas à beira do colapso?
O desespero, contudo, é um péssimo conselheiro e uma armadilha que serve justamente aos destruidores. Se nos entregarmos ao niilismo de que 'nada mais tem jeito', abrimos mão da resistência e deixamos a terra livre para a sanha das motosserras e da grilagem predatória.
A resposta contra a fumaça é a teimosia da semente. Cada árvore nativa que plantamos na calçada, cada nascente que protegemos com cercas vivas, cada escolha de consumo consciente que fazemos e cada voto com consciência ecológica que depositamos na urna é um ato de rebeldia sagrada contra a morte anunciada. A esperança não é uma certeza tranquila: é uma trincheira de ação.
“Mesmo sabendo que o mundo pode terminar amanhã, o ato revolucionário mais nobre é plantar hoje uma semente de árvore na terra.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre a ansiedade climática e a esperança que planta
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 03/09/2025 às 03:22
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