O Mapa no Bolso Furado e a Febre do Começo — Caderno de Vida (2003)
A audácia dos vinte anos de querer redesenhar o mundo antes de compreender a lentidão das pedras, os bolsos vazios de dinheiro e cheios de futuro. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre juventude e inquietação.
Lembro-me com uma nitidez quase dolorosa daquele rapaz de vinte anos que descia a avenida com passos largos, carregando na mochila uma apostila amassada e no bolso furado um bilhete de metrô que representava metade de sua fortuna visível. Havia uma pressa sagrada em cada gesto seu. Acreditava piamente que o mundo padecia de uma cegueira crônica que apenas a sua geração conseguiria curar, e olhava para os homens engravatados e apressados nos pontos de ônibus com uma mistura soberba de pena e indignação.
Para a juventude, a paciência parece sempre uma capitulação vergonhosa. Quer-se o amor definitivo na primeira curva da tarde, a justiça social promulgada no próximo decreto e o reconhecimento dos talentos antes mesmo que a argila tenha sido colocada na roda do oleiro. Há uma beleza fulgurante nessa imprudência: sem o fogo desajeitado dos jovens, a história humana teria se acomodado ao mofo dos velhos consensos e à poeira dos arquivos burocráticos.
Contudo, a vida é uma mestra paciente e irônica. Ela não nos desmente com discursos austeros; apenas vai colocando encostas íngremes na nossa frente, prazos que vencem sem dó, contas de aluguel que chegam sem poesia e a constatação lenta de que mudar a si mesmo exige um heroísmo muito mais silencioso do que proclamar manifestos em mesas de bar.
Hoje, ao olhar aquele jovem pela janela da memória, não sinto vontade de repreendê-lo por seus exageros ou por sua arrogância cândida. Pelo contrário: invejo-lhe o peito escancarado para a ventania e a capacidade de não calcular o preço da queda. Que a maturidade nunca me roube a lembrança daquele fogo, porque sem ele qualquer sabedoria acumulada não passa de cinza bem organizada.
“A juventude não é uma estação do calendário, mas a coragem insolente de começar a jornada sem pedir garantia de chegada.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre juventude e inquietação
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 09/11/2003 às 02:51
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