O Milagre do Café Coado e a Luz da Janela — O Testemunho do Tempo (2009)
O valor inestimável de uma manhã mansa; como os rituais caseiros preservam a sanidade no meio do turbilhão do mundo. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre a poesia discreta dos rituais cotidianos.
Enquanto a cidade lá fora ainda se espreguiça no cinza da alvorada, ponho a chaleira de ferro no fogo e espero o chiado manso da água quase fervendo. Há uma reverência quase litúrgica nesse gesto simples: o pó fresco depositado no filtro de pano, o aroma denso que sobe em espirais desenroladas no ar, o primeiro gole quente que espanta o frio da noite e desperta a consciência.
Os grandes filósofos passaram séculos discutindo sobre o sentido da vida, construindo catedrais conceituais e sistemas metafísicos labirínticos. Muitas vezes, contudo, a resposta para o enigma da existência não está nas bibliotecas empoeiradas, mas no frescor de um pedaço de pão com manteiga e na claridade que começa a dourar as venezianas da cozinha.
Passamos os dias obcecados com o 'amanhã': a promoção que virá, a viagem das férias, a reforma do apartamento, o contrato que será assinado. E nesse compasso ansioso de mirar sempre o horizonte seguinte, deixamos de habitar o único território real que nos é dado: o agora. A vida não é a festa de inauguração do palácio; a vida é o café da manhã tomado na poeira da obra.
Aprender a saborear os pequenos rituais sem pressa de que eles terminem é o maior escudo contra a loucura contemporânea. Se temos ar nos pulmões, um teto que nos abriga da chuva, um café quente na caneca e a consciência limpa, já somos donos de uma riqueza que nenhum rei da antiguidade pôde comprar.
“A felicidade não reside em acontecimentos extraordinários, mas na capacidade de reverenciar o milagre silencioso de uma manhã comum.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre a poesia discreta dos rituais cotidianos
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 27/02/2009 às 03:22
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