O Pequeno Tirano do Balcão e o Orgulho dos Carimbos — Caderno de Vida (2018)
A crueldade dos pequenos chefes que usam uma migalha de autoridade para humilhar o semelhante; a pequenez dos déspotas de repartição. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre o abuso de poder e a soberba dos medíocres.
Não há espetáculo mais deprimente na vida em sociedade do que o homem que, guindado a um cargo de menor relevância, passa a tratar os seus semelhantes como súditos culpados. O fenômeno é universal: vai do segurança de boate que desfruta da prerrogativa de barrar quem não lhe agrada a cara, ao burocrata que se compraz em exigir mais uma cópia autenticada apenas para ver o cidadão suar a camisa.
O abuso de poder não reside apenas nos grandes palácios de governo ou nos gabinetes ministeriais; ele se dissemina capilarmente nas relações cotidianas. É o gerente de banco que nega um benefício legal com um sorriso sádico nos lábios; é o coordenador de departamento que persegue o funcionário mais competente por puro complexo de inferioridade; é o síndico que se comporta como o imperador romano do condomínio.
A raiz dessa patologia moral é sempre a covardia. O déspota só é feroz com quem está desarmado e submisso; diante de alguém mais poderoso do que ele, dobra a espinha com a rapidez de um réptil e derrama salamaleques servis. Sua autoridade não emana do respeito que inspira ou do saber que acumula, mas da baioneta institucional que momentaneamente lhe colocaram nas mãos.
O consolo histórico é que o poder fundado no arbítrio é efêmero por natureza. As cadeiras mudam de dono, as portarias são revogadas, os cargos passam e a aposentadoria chega para todos. No dia em que a caneta perde a tinta do cargo, o tirano descobre o seu tamanho real: um homem vazio, solitário e amargo, de quem as pessoas desviam o olhar na rua para não precisar lembrar da humilhação sofrida.
“Dê a um homem medíocre uma caneta com tinta azul e um carimbo de controle, e ele construirá ao seu redor uma masmorra de prepotência.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre o abuso de poder e a soberba dos medíocres
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 03/11/2018 às 03:22
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