Onde Cantavam as Lavadeiras: As Águas Vivas sob o Asfalto — Reflexão de 2010
As águas que a especulação imobiliária transformou em galerias de esgoto e a urgência de reconciliar a cidade com seus mananciais. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre a memória das águas e os rios soterrados.
Sob as avenidas mais congestionadas das metrópoles brasileiras, correm rios que já foram límpidos e povoados por peixes prateados. Onde hoje buzinas histéricas disputam centímetros de asfalto cinzento, lavadeiras batiam roupas nas pedras cantando cirandas de roda, e crianças mergulhavam nas tardes quentes de janeiro sem medo de infecções químicas.
A engenharia do século XX operou com a arrogância cega de quem via a água como um estorvo viário. Retificaram meandros naturais, ergueram muralhas de pedra e colocaram tampas colossais de concreto sobre as bacias hidrográficas para que os automóveis pudessem rodar em cima do túmulo dos córregos. A natureza, porém, tem memória milenar e não se submete ao plano diretor dos prefeitos.
Basta uma chuva de verão um pouco mais vigorosa para que as águas reclamem o seu leito ancestral. Os bueiros explodem, o trânsito trava e a água invade garagens e salas de estar, não por maldade divina, mas porque aquele vale sempre foi dela. O rio não invadiu a avenida; foi a avenida que construiu sua insolência sobre o lombo sagrado do rio.
Reabrir os rios urbanos, despoluir suas margens e transformá-los em parques lineares onde as famílias possam caminhar não é utopia de ecologista desocupado: é a única saída inteligente para evitar que as cidades do futuro se transformem em fornos inabitáveis ou pântanos tóxicos. Cuidar da água é o primeiro mandamento de quem deseja continuar vivo.
“Uma cidade que enterra seus rios sob túneis de concreto é uma cidade que sepulta a sua própria alma e colhe enchentes como castigo.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre a memória das águas e os rios soterrados
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 27/08/2010 às 02:46
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