Quando as Mãos que Nos Guiaram Passam a Precisar do Nosso Braço — Notas da Jornada (2019)
O momento solene e comovente da vida em que os filhos se tornam os guardiões dos pais; a ternura de amparar passos lentos. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre o tempo e a inversão do cuidado.
A infância tem a doce ilusão de que os pais são seres eternos e inabaláveis. O pai é aquele gigante capaz de nos erguer nos ombros para ver o mar acima da multidão; a mãe é o refúgio invencível que cura qualquer febre com um beijo na testa e um chá de erva-doce. Eles conhecem todos os caminhos, consertam todos os brinquedos e não sentem medo de nada.
Então, sem que haja aviso prévio, os anos passam a sua fatura silenciosa. Um dia você repara que seu pai hesita antes de descer um meio-fio alto; noutro, percebe que sua mãe repete a mesma pergunta pela terceira vez e que suas mãos, outrora tão firmes na máquina de costura, tremem de leve ao segurar a xícara de café. O coração dá um solavanco surdo: o tempo começou a cobrar os juros da vida.
Essa inversão de papéis é um dos ritos mais sagrados e dolorosos da condição humana. É a hora em que o filho precisa aprender a engolir a própria pressa para caminhar no compasso miúdo dos idosos. É preciso aprender a ouvir a mesma história de cinquenta anos atrás com olhos de quem a escuta pela primeira vez, porque é naquelas lembranças que eles ancoram a própria identidade.
Amparar o braço de um pai ou de uma mãe que envelhece não é um fardo; é uma honra sublime. É a oportunidade única que a vida nos concede de retribuir, ainda que em modesta parcela, a montanha de renúncias invisíveis que eles fizeram para que pudéssemos ficar de pé e ter um destino nosso.
“A maior prova de nobreza humana é devolver com paciência infinita o cuidado, a comida e o carinho que recebemos no berço da nossa fragilidade.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre o tempo e a inversão do cuidado
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 02/11/2019 às 02:58
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